24.3.10

Roma, 24 de março de 2010, quarta-feira


Domingo é dia de eleições regionais aqui na Itália. Não vimos muita movimentação além de incontáveis cartazes espalhados pela cidade, mas nossa interação com italianos tem sido um pouco restrita. Hoje eu conversei com uma senhora na academia que tinha recém participado de uma discussão entre umas quatro pessoas perto das esteiras elétricas. No vestiário, ela bufava e murmurava alguma coisa. Perguntei o que era (pensei por um momento que falava comigo) e ela me falou: nosso país vai muito mal. E começou a falar de todas as mazelas trazidas pelo governo Berlusconi, o presidente trilionário que é dono de metade da imprensa e de uma boa parcela de indústrias no país. "Os jornalistas não podem falar nada, ninguém pode falar sobre o que está acontecendo. É uma ditadura", ela dizia.

Propaganda do Berlusconi em Nápoli

Começou a falar do estado calamitoso da saúde pública na Itália, que ela por algum motivo conhece bem. Eu então pude falar um pouco da situação do Brasil, da qual ela não sabia nada. Está acontecendo por aqui também uma discussão em torno da água, que o Berlusconi quer privatizar. Foi muito fácil concordar com ela, eu também tenho uma péssima opinião do Berlusconi e do governo de direita italiano. Mas o mais impressionante de tudo foi compreender porque ela estava tão frustrada. Justamente porque os outros três colegas de academia, participantes da discussão, eram a favor do Berlusconi. E defendiam que a Itália estava bem, a crise já havia passado, o país caminhava a passos largos para um futuro promissor. Não sei se isso é um efeito da blindagem da imprensa aqui. É difícil entender porque os italianos são fascinados por este governo... fascista.

Pensando bem, talvez não seja tão difícil de entender assim.


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Hoje dei uma passeada pela piazza Barberini e, ali perto, fui conhecer a igreja Santa Maria Della Vittoria.

Roma é o paraíso para quem gosta de visitar igrejas. Deve haver, certamente, umas boas centenas de igrejas com um considerável valor arquitetônico, além do valor religioso que acho que deve ser o mesmo para qualquer uma.

Essa era especialmente impressionante por causa de uma famosa escultura de Bernini - O Êxtase de Santa Teresa.

Há na igreja um trecho de uma autobiografia da Santa, "O Livro da Vida", em que ela relata as visões que foram responsáveis pelo seus status de santa e pela homenagem na escultura. Ela vê um anjo muito "formoso" que perfura seu coração diversas vezes com uma flecha. A dor é intensa, ela diz, mas não se compara ao que ela sente, "abrasada por um intenso amor de Deus". E continua: "a dor era tão grande que eu soltava gemidos, e era tão excessiva a suavidade excessiva por essa dor intensa que a alma não desejava que tivesse fim nem se contentava senão com a presença de Deus". A escultura de Bernini, ao que parece, causou um certo frisson, tendo sido rejeitada pelo Vaticano.

Uma turista ao meu lado comentou: "it's kinda crazy".

Vou me furtar a tirar conclusões públicas sobre o que estava vivendo a Santa e que tipo de experiência foi essa, mas deixo a escultura pra vcs, que com certeza é impressionante.


O Êxtase de Santa Tereza - escultura de Bernini - Igreja Santa Maria della Vittoria

detalhe
detalhe

Estátuas do cardeal Federico Cornaro e seus ancestrais,
como em um camarote, assistindo à cena do "Êxtase"

Igreja Santa Maria della Vittoria

Escultura O Sonho de São José - de Domenico Guidi

As ruas em volta da Piazza Barberini são muito bonitas e agradáveis, e a piazza em si é muito simpática, com outra escultura de Bernini representando o deus Tritão. Ali perto também fica a Via Veneto, a única rua que o meu curso de italiano em mp3 conhecia ("dov'é Via Veneto? Via Veneto é qui!"), e também cenário de La Dolce Vita, a rua onde o paparazzo e o Marcello ficavam procurando gente famosa. De acordo com o meu guia, a Via Veneto já viu dias mais glamourosos, e hoje em dia pouco agito acontece por ali. De qualquer forma, um certo charme permanece
Piazza Barberini – Fontana del Tritone – escultor Bernini
Piazza Barberini – Fontana del Tritone – escultor Bernini

fachada do Hotel Bernini

Janela simpática

Lotus laranja

Depois subi pela Via delle Quattro Fontane, para ver as tais Quatro Fontane que nomeiam a rua. É um cruzamento que em cada esquina tem uma fonte, uma mais bonita que a outra. Abaixo, o deus do rio Tevere (Tibre), acompanhado da famosa loba que amamentou Rômulo e Remo na lenda da origem de Roma. E depois, a deusa Juno, representando a Força.

Quattro Fontane - Deus do Tevere

Quattro Fontane - Juno

21.3.10

Roma, 21 de março de 2010, domingo

É outra coisa estar no centro do mundo...

Resolvi dar uma pesquisada nos sites de algumas bandas e descobri que praticamente todas bandas que eu quero ver vão estar na Europa este ano... Estou em delírio! E também achando que vou à falência.

Pra começar, o Leonard Cohen, que é talvez o show que eu mais queira ver na vida. Em setembro ele vai fazer uma turnêzinha básica pelo interior da França... Nada mal hein? Será que prefiro ir pra Grenoble ou pra Marseille? Alguém tem uma sugestão? Um showzinho do Leonard Cohen na Provence seria, tipo, o auge da minha vida.

Em junho, em Londres, estarão tocando Pearl Jam e Paul McCartney em um festival chamado Hard Rock Calling, no Hyde Park, e nada menos que Bon Jovi, na 02 Arena. Posso ir nos três shows com um dia de intervalo entre cada um... 23, 25 e 27 de junho. Meu Deus. Dia 22, Norah Jones. E se eu chegar um pouco antes, 15 de junho tem Aerosmith, e dia 16, Stone Temple Pilots.

Maio em Roma: Pavement pela mixaria de 30 euros. Vi o cartaz na rua esses dias. É inacreditável.

Pra ver o Lou Reed, agora em abril, dá pra escolher: Paris, Londres, Copenhagen, Bruxelas, Oslo... Bob Dylan na França, ou Espanha, em junho.

Tive que parar por aqui minha pesquisa. É melhor nem saber mais o que pode estar acontecendo..

Carol.

20.3.10

Roma, 20 de março de 2010, sábado

Estamos em casa hoje porque o Lucas pegou uma virose, desde ontem está passando mal... Mas não há de ser nada, logo ele deve estar melhor. Está sendo muito bem tratado, hoje comeu sopinha e tudo, e tá tomando os remédios direitinho...

Essa semana pra nós foi tempo de as coisas entrarem nos eixos, e de começarmos a nos "acostumar" um pouco com a vida aqui. Menos surpresas e mais certezas. Fiquei pensando sobre isso quando conversei com a moça que faz a limpeza daqui. Perguntei se estava tudo bem com ela, ela disse que sim, e perguntou se estava tudo bem comigo. Eu respondi afirmativamente, e ela emendou: ah, então está se habituando.

Estranhei essa palavra, fiquei pensando sobre os hábitos (nenhum trocadilho com as roupas das freiras). Essas práticas que se entranham na gente e, se a gente deixar, tomam conta, comandando a vida como um piloto automático. Será posssível, então, habitar um lugar, sem habituar-se a ele?

Pois bem, acho que essa semana começamos a habitar Roma, e talvez adquirimos alguns hábitos. O Lucas engrenando o trabalho na universidade, e eu reconhecendo a cidade, marcando alguns territórios. Começamos os dois a fazer ginástica em uma academia aqui perto. Me inscrevi em um curso de italiano, e sigo com as lições particulares aqui na casa. Estou também aproveitando para ler muito, um daqueles hábitos que eu acho que valem a pena adquirir, ou re-adquirir no meu caso. Ter tempo pra ler o que quiser era meio que o meu sonho durante os últimos anos, e estou conseguindo fazer isso aqui. Procuro um lugar bonito, novo ou conhecido, outras vezes fico em casa mesmo, e leio.

Essa semana o Lucas almoçou com o embaixador do Brasil, que é amigo do tio do Cássio que mora aqui em Roma. Esse embaixador adora física, então ele convida uns físicos pra ir almoçar com ele e bater papo. Ele gostou da experiência, que também rendeu novos contatos. Dois desses físicos tocam em uma roda de samba, e fomos conhecer o som deles quinta-feira. Em um restaurante / bar bem chique e descolado, eles montam um clima carioca, começam o samba e a italianada vai à loucura. Foi muito divertido, mas tivemos que ir embora cedo.. Sabem como é, temos hora pra entrar...

No mais, tudo bem. Semana que vem quero ir conhecer uns lugares novos e coloco fotos.
Continuem mandando notícias!

Carol.

15.3.10

Roma, 14 de março de 2010, segunda-feira

Ontem adentramos o mundo dos brasileiros em Roma. Fomos convidados pela Mariza, amiga dos meus pais lá de Foz e que mora aqui há 4 anos, pra comer uma feijoada na casa dela. Pra nós foi como uma lufada de ar fresco, ar com cheio de feijão e farofa.

Foi um dia muito agradável, aqueles dias com frio e sol que eu adoro em Porto Alegre. Pegamos o ônibus até a casa dela, que fica do lado da Piazza San Petro, no Vaticano. Da janela da sala se vê a cúpula da Basílica, que é uma beleza.

Muitos brasileiros, de todas as idades e de todas as regiões do país estavam lá,nos receberam muito bem. Ficamos até de noite batendo papo e ouvindo histórias de vida incríveis, de gente que já fez de tudo um pouco. Foi muito bom, nos sentirmos em casa de novo.

Carol


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Roma, 13 de março de 2010, sábado


Bella Napoli - por Lucas & Carol

Carol:
Sexta de manhã acordei meio deprê com a história toda do visto (ver dia 11). O Lucas colocou pra tocar aquela música "Cruisin'", que é do Smokey Robinson mas a gente conhece pela Gwyneth Paltrow no filme Duets. E daí eu fiquei ouvindo aquela frase... "baby let's cruise... awaaaay from heeeeere". E aí veio a idéia: vamos viajar?

O Lucas tá meio de folga da universidade essa semana porque todo o grupo dele está em um congresso. Então, topou na hora. Pegamos o mapa pra pensar qual seria nossa direção. Quem sabe... Nápoles?

2h30 de trem depois estávamos lá. Minha primeira viagem de trem de verdade (andei no trem da morte, na Bolívia, mas convenhamos que era bem diferente, embora não menos emocionante). Foi muito divertido, as paisagens eram bonitas (vinhedos, rebanhos de ovelhas, campos...) e nossos vizinhos de trem eram engraçados - uns italianos ricos vestidos de forma ruidosa.

Nápoles, à primeira vista pareceu uma cidade feia. Meio suja, o trânsito completamente confuso, muito pior que Roma. Quase fomos atropelados umas vinte vezes.

Lucas:

Achei legal em Nápoles que a cidade é bem desordenada e muito rica culturalmente. Não sei explicar bem porque uma certa bagunça me deixa contente, talvez porque me faz sentir em casa.

Quando chegamos, pra variar não precisava pagar para usar o metrô - paga quem quer. Isso em Roma se limita ao ônibus, mas no metrô em Nápoles é anarquia total. No fim eu e a Carol sempre pagamos algumas vezes pra não dar chance ao azar, que se pegam a gente é um monte de euros em multa. Descemos do metrô e vimos uma placa solta de um lugar pra ficar e saímos caminhando. Ficamos meio apavorados no começo pelos maus tratos que os prédios e as ruas aparentavam, junto com alguns tipos meio diferentes, imigrantes e tal, além de que um par de vespas quase nos atropelou. Continuamos e, tentando voltar para a rua principal que parecia mais segura, entramos em uma rua muito caótica primeiro com frutas e verduras à venda na rua, depois peixes frescos muito apetitosos e mais tarde todos tipos de roupas e produtos da China à venda nos ambulantes, em vendinhas com lonas em cima. No fundo os prédios cobertos de roupas estendidas, sol, crianças brincando e um trânsito muito agitado e barulhento a poucos centímetros do cara... quanta buzina!! Aliás, outra diferença com Roma é que as vespas são muito mais antigas e portanto com o motor muito barulhento - e nesse caso elas são muitas mais do que carros.



Peixeria em Nápoles

Peixes, polvos, lulas e arraias


Fruteira

Doceria

Bem, não achamos lugar pra ficar mas fiquei muito contente com essas boas vindas. Retomamos nosso caminho ao Museu Arqueológico de Napoles.

Carol:

No Museu, vimos primeiro a Coleção Farnese, que é uma coleção de esculturas romanas em mármore, a grande maioria do séc I e II d.C., que pertenciam à família Farnese, uma família rica e influente na Itália. A maior parte delas são imitações de esculturas gregas, já que a cultura romana foi basicamente construída a partir da herança grega. Ficamos especialmente enternecidos com as bem-desenhadas bundinhas de Afrodite e Hércules...





Coleção Farnese - Museu Arqueológico de Nápolis

Ficamos horas no museu, vendo as esculturas Farnese, objetos encontrados em Pompéia (desde armaduras de gladiadores até pequenos copos de vidro, passando por pedaços do templo de Ísis) e objetos do período neolítico. Fiz amizade com um senhor napolitano que trabalhava no museu, que nos deu boas dicas sobre a cidade (primeiro bate-papo bem sucedido em italiano!).

Achamos um Bed & Breakfast muito charmoso, com um preço razoável, e nos alojamos. Caminhamos mais um pouco por Nápoles, eu comecei a ficar enlouquecida com as promoções de inverno Tudo era muito barato, quase de graça, mas resisti bravamente. Só comprei uma bota no camelô por 5 euros, pra esquentar meus pés nos dias de chuva. A bota obviamente é chinesa, mas isso não importa.


Problema grave atinge a população italiana

À noite comemos uma deliciosa pizza cada um, à moda italiana. Pode parece coisa de gordo, mas a pizza é bem mais leve aqui, com pouco queijo, e a porção individual é uma pizza mesmo. Depois fomos procurar um lugar pra sair à noite, empolgados com a nossa possibilidade de ficar além das 23h30.



Pizzaria Scugnizzi

Ficamos primeiro na praça Bellini, que o guia dizia que era onde o pessoal ficava à noite. Tinha pouca gente ali, os bares estavam vazios, e lá pelas 22h fomos em busca de algo melhor. Dobrando a esquina encontramos o "point", um lugar chamado "Cadences Infernales". É um lugar bem pequeno, cheio de livros e discos que a gente pode ficar xeretando à vontade, gente "descolada" pros padrões italianos e um DJ que fez um dos melhores set-lists que já ouvimos em uns bons anos. Deliramos com cada música. A maioria era desconhecida pra nós, e as conhecidas eram muito boas. A interação com estranhos até aconteceu, mas foi mínima. Ainda não sabemos nos enturmar direito por aqui, mas estamos ficando um pouquinho melhores a cada dia.


DJ no inferninho napolitano

No outro dia, pegamos o Funicolare (funiculi-funiculá!) que é nada mais que um trem-elevador, criado só pra subir um morro, e fomos ao Castel Sant'Telmo. É um castelo que fica no alto de uma colina, de onde se vê toda Nápoles. A vista era deslumbrante. Não vou descrever pra vocês porque as imagens dão uma dimensão do que era.


Vista de Nápoles, com o porto à direita e o Vesúvio ao fundo



À tarde fomos procurar uma exposição de quadrinhos no bairro chiquetésimo de Chiaia, que tínhamos visto em um cartaz. Caminhamos bastante até o museu só pra descobrir que a exposição ainda não estava funcionando. Como na vida de turista nada acontece por acaso, descobrimos que nossa ida a Chiaia não tinha sido à toa. Primeiro que no caminho ficamos nos deliciando com cada esquininha charmosa de Nápoles. Depois, porque ali dava pra chegar até a praia, e tivemos a oportunidade de ver um belo entardecer no mar.



Rua típica em Nápoles

Aqui se joga futebol nas praças...

e se estende as roupas na janela...


Entardecer no mar em Nápoles





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Roma, 11 de março de 2010, quinta-feira

A maratona burocrática

Eu sou uma pessoa sem visto, essa é a triste verdade. Uma mera turista, que pode pisar no solo italiano por não mais do que 90 dias (não só no italiano, no de quase todos países da UE). Eu já sabia disso quando vim pra cá, e que a minha possibilidade de ter um visto se chama "recongiugimento familiare".

Só que pra fazer o tal recongiugimento (que é a possibilidade que eles dão pra uma pessoa com visto - Lucas - chamar os familiares para morarem consigo na Itália), tem uma burocracia muito complexa, a qual nós apenas podíamos vislumbrar antes de hoje. E a burocracia deve ser feita pelo membro com visto - Lucas - enquanto o outro membro da família aguarda pacientemente no Brasil pelo desenrolar da papelada.

Obviamente nós não queríamos ficar meses separados por conta disso, e eu resolvi vir como turista e tentar achar, por aqui, alguma forma mais fácil de conseguir estender um pouco minha estadia. O famoso jeitinho, né? Meu santo graal se chama “permesso di soggiorno”, ou seja, uma pemissão para residir na Itália. Em busca disso, então, fomos hoje.

Primeira parada: Ufficio Imigrazione. Metrô linha B até o final da linha, mais um ônibus para verdadeira periferia de Roma. Não foi difícil achar a parada para descer porque estávamos acompanhados por dezenas de imigrantes, de todas as cores e etnias, falando todas as línguas possíveis e imagináveis. Chegando lá, me lembrei das vezes em que tive de ir ao INSS: um lugar composto de filas de gente querendo uma coisa que o Estado não quer dar.

Soldados do exército nos receberam na porta e nos direcionaram pra uma fila (lógico), onde deveríamos pedir informações a uma mulher protegida por um vidro e um alto falante. Quando chegou a nossa vez, explicamos nossa situação, em italiano, com uma considerável dificuldade. Como boa burocrata, ela nos deu uma resposta negativa (não é possível fazer “permesso di soggiorno” sem visto) e um papel com um endereço: - vocês podem ir até este lugar, ver o que eles podem fazer por vocês.

Outro metrô e uma certa pernada depois, chegamos ao famoso “Sportello Unico”, um prédio que centraliza várias funções burocráticas com a suposta intenção de ser mais eficaz. Subimos com os demais imigrantes à nossa devida fila e ficamos felizes em ver que ali, pelo menos, poderíamos falar com alguém sem um vidro e um alto falante no meio. Duas mulheres fizeram um certo esforço em nos entender e em nos ajudar. Sim, elas disseram, você pode pedir o visto de recongiugimento. Assim que voltar ao Brasil. Ok, eu pensei, nesse ponto já não me importava em voltar ao Brasil, apesar do gasto com as passagens. Como fazemos o visto?, perguntamos. É fácil. Basta a pessoa com o visto – Lucas -, depois de já ter recebido seu permesso de soggiorno, claro, pedir a “Nulla Osta” (outro papel), e a outra pessoa – eu – pede o visto no Brasil. Ok, quanto tempo leva pra chegar o permesso de soggiorno? 3 a 4 meses. E quanto tempo para fazer a Nulla Osta? 6 meses.

Eu saí dali bastante pessimista. Nem voltando ao Brasil e fazendo um novo visto eu tenho chance de ficar aqui pelos 6 meses que queria ficar. São simplesmente 3 meses a mais que o governo italiano não me proporciona.

Se alguém tiver uma luz no fim do túnel, por favor, acenda.

Meio desolados, voltamos pra casa, almoçamos e deixamos pra pensar nisso em outro dia. Quem sabe conversando com as pessoas descobrimos alguma coisa.

A boa notícia do dia: quando voltei pra casa vi a moça da recepção usando a internet em um notebook, com um cabo de rede. Subi pro quarto e coloquei um cabo de rede na entrada na parede e voilá! Temos acesso à internet no nosso quarto! Ficamos bem felizes com a facilidade. O Lucas conseguiu instalar umas geringonças de modo que podemos conectar os dois notebooks ao mesmo tempo. Só que infelizmente descobrimos agora que a internet é disponível só até as 22h30, o que deve ser a hora das ragazze dormirem.


Carol.


9.3.10

Roma, 09 de março de 2010, terça-feira

Sucesso na utilização do wireless na biblioteca. Infelizmente fecha às 19h, 15h no Brasil, ou seja, não vou conseguir falar com muita gente nesse horário. Mas consegui publicar o blog hoje.
Voltou a chover. Faz um frio desgraçado, nao dá vontade de sair de casa. Todos os meus sapatos molham e consequentemente meus dedos ficam congelados. Novo objetivo: comprar uma bota impermeável.

Fomos na questura hoje, sem muito sucesso. Amanhã vou tentar encaminhar o permesso de soggiorno no Correio, já que tentar não custa nada (quer dizer, tem uma taxa de 14 euros), mas o cara da Questura já falou que é bem provável que eu não consiga. Talvez tenha que voltar ao Brasil e fazer um visto de lá. Vamos ver, a esperança é a última que morre.

Carol


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Roma, 08 de março de 2010

Hoje fui à Universidade com o Lucas tentar usar a internet com a senha dele, mas não conseguimos. A senha dele teve um problema e não funcionou. Na volta, descobri uma biblioteca pública, que tem internet grátis, livros e DVD's pra alugar. Também conhecida como minha segunda casa daqui pra frente. Ela estava fechada hoje (segunda-feira), mas amanhã vou lá me inscrever.

Também comecei hoje a estudar italiano com uma das irmãs que é professora. Ela fala bastante, e de forma bem clara, o que pra mim já está sendo um baita aprendizado. Vamos ver se ela me deixa falar um pouco na próxima aula, porque eu preciso avançar da língua Tarzan-Jane. Hoje não saímos dos artigos definidos e indefinidos. Vai ser uma hora de aula, no mínimo 3 vezes por semana, podendo aumentar dependendo do meu rendimento e dos compromissos dela.

Agora meu próximo grande e primordial objetivo é ir na “Questura”, que é a Polícia Federal daqui, ver se eles me dão um “permesso de soggiorno”, que é a permissão para residir na Itália, pelo menos até outubro. Vou fazer isso amanhã, já peguei os papéis do pensionato comprovando que estamos morando aqui. Torçam por mim por favor. Com certeza não vai ser fácil, e várias papeladas me aguardam.

Depois, outro objetivo é achar uma academia de ginástica, pra evitar que toda a pizza e lasanha se alojem permanentemente na minha cintura. Assim, fazendo ginástica diariamente e as aulas de italiano, pretendo criar uma certa “rotina” na minha vida desterritorializada. Criar só um pouquinho de território, porque meu objetivo maior com essa viagem é, mesmo, ser estrangeira.

Carol

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Roma, 07 de março de 2010, domingo

Lua de mel com le suore

Morar aqui na casa das freiras é um constante paradoxo. Por um lado, nos sentimos gratos por estarmos sendo acolhidos aqui, por um preço módico para os padrões de Roma, com todas as refeições prontas e a 2 quadras da universidade, além de sermos, em geral, muito bem tratados. Por outro lado, é estranho estar morando com as celibatárias freiras e um grupo de moças italianas, durante o que deveria ser algo como uma lua-de-mel. Também é paradoxal estarmos morando em San Lorenzo, o bairro mais boêmio de Roma, lotado de pubs, boates, associações culturais e cinemas, tendo que estar toda noite em casa até as 23h30. Poderia ser pior. Meu pai ficou em Roma tendo que estar em casa às 19h, e morando com velhinhos.

A nossa idéia inicial era ficar aqui por um mês e procurar um apartamento, mas às vezes temos dúvidas se vale a pena deixar este lugar. Temos um quarto muito bom, com 2 camas, que já juntamos, escrivaninhas, armário e banheiro, uma vista bonita e muito silêncio. O banho é quente e o quarto aquecido. A localização é ótima. A comida é boa e incluída no preço.


Nosso quarto

Nós ainda não conseguimos entender direito que espécie de lugar estamos. Pretendemos perguntar isso para as irmãs com mais calma, mas sempre há assuntos mais urgentes para perguntar. Quem vive aqui, além das freiras, são moças, ainda adolescentes, “ragazze”, que encontramos na sala de refeições. Nós somos os “ospide”, temos uma certa diferenciação na hora de almoçar e jantar: nossa mesa tem uma plaquinha e uma garrafa de vinho. O que as jovens ragazze fazem aqui neste lugar, não temos idéia. Parecem muito jovens pra estar na universidade. Presumimos que são do interior, e vêm aqui para estudar alguma coisa. Se vêm estudar para serem freiras, não sabemos, é um pensamento um pouco assustador para nós.
Conviver com as irmãs (le suore) é como viver uma vida de Noviça Rebelde. Tem irmãs de todos os tipos: a simpática, que se desdobra pra nos ajudar e está sempre sorrindo; a rígida, que fica caminhando pela sala de jantar, de sobrancelhas grossas e cenho franzido, dando recados às jovens enquanto elas se afogam no prato de macarrão; a atrapalhada, que se confunde nas informações e não entende nada o que dizemos; e a madre superiora, que primeiro eu achava que era uma entidade abstrata da qual só ouvimos falar (“la superiora”), mas que acabei de descobrir que é a mesma pessoa simpática que tem nos ajudado muito.

Elas realmente têm se esforçado pra nos acolher aqui. Quando eu perguntei se poderia usar a geladeira pra colocar alguma coisa (no café da manhã vejo que algumas das moças levam iogurtes e outras coisas, então supus que deveria haver um lugar para guardá-los), elas nos trouxeram um frigobar que estava na sala da superiora. Conseguiram lençóis de casal para nós, coisa que não havia na casa. E quando questionei se havia um tanque ou máquina de lavar, elas ofereceram um pequeno varal pra gente colocar no banheiro e estender as roupas pequenas, além do endereço de um lav-lev que cobra só 3 euros. Agora que perguntei se conheciam algum curso de italiano, que quero fazer, uma irmã, que é professora, se ofereceu a me ensinar a língua de graça. Fiquei em dúvida se aceitava, porque, por um lado, perco a oportunidade de conhecer gente, ter colegas, mas por outro economizo uns 300 euros por mês, que compram uma boa quilometragem de mochilão pela Europa. Assim fica difícil sair daqui, por mais que a gente tenha vontade de ter nosso cantinho e fazer o que bem entendermos. Decidimos ficar aqui até encher o saco. Vamos ver quanto tempo vai ser.


Mitos e Verdades sobre Roma

Já desmenti várias coisas que ouvi sobre Roma. A primeira foi: a pizza é ruim. Só um louco diria isso. A pizza é ótima, dá vontade de não comer mais nada além de pizza (e lasanha, não posso deixar de acrescentar, já comi duas maravilhosas).

Outra: a cidade é feia. Pelo contrário. É linda, de tirar o fôlego. Ontem vimos um pôr-do-sol do alto da Villa Borghese, um parque incrível, e ficamos comovidos. O Palatino é um dos lugares mais lindos que eu já vi, merece um capítulo à parte.

Pôr do Sol no parque Villa Borghese






Verdade: as pessoas são grossas. Sim, muitas delas são mesmo. Toscas. Não dá pra ser muito sensível, tem que ignorar a ignorância. Por outro lado, elas são espontâneas, o que é uma qualidade importante ao meu ver. Além disso, nem todas as pessoas são grossas. As freiras daqui são muito simpáticas, em geral, e algumas pessoas com quem conversamos foram bem acessíveis. Mas meu contato com romanos, além das freiras, tem se limitado a pedir informações, escutar conversas alheias e comprar uma ou outra coisa. Eles não parecem ter muito interesse pela gente, per gli stranieri, e não têm muita paciência com nosso italiano ínfimo. Bem diferente do brasileiro, que se derrete à vista de qualquer um que não entenda nossa língua. Amigos italianos são uma utopia pra nós, esperamos conhecer logo alguns brasileiros pra trocar umas idéias sobre tudo isso aqui.

Outra frase: Roma é perigoso. Até agora, não vi nada que comprovasse essa tese. De tanto ouvir conselhos, eu ando totalmente desconfiada de qualquer um que passe a um metro da minha mochila, mas confesso que me sinto paranóica. Dá pra notar que ninguém sente medo, ninguém desconfia do outro. Não vi nenhum ato de violência, vejo pessoas andando tranquilamente com câmeras a tiracolo e carteiras no bolso. De qualquer forma, como boa brasileira, vou esperar um tempo pra mudar essa minha idéia.

Último mito desmentido: na Europa ninguém tem rinite. A minha rinite segue comigo, feito um cão fiel.



Fazendo turismo

No meu primeiro dia de folga (que serão todos daqui pra frente, até começar o mestrado em setembro) resolvi ir conhecer o Coliseu. É bem batido, eu sei, mas eu tinha curiosidade. Entrei lá, paguei 12 euros, o que dá direito a ver o Coliseu, Palatino e Fórum Romano. O ingresso é valido por 2 dias, porque é impossível ver os três espaços em um dia. Eu comprei, meio contrariada, sem a menor noção do que me esperava (aliás, esse é lado bom de ser uma turista desinformada, a gente se surpreende muito). Tive que voltar depois com o Lucas pra compartilhar com ele este lugar.

O Coliseu é muito bonito, especialmente por fora. Por dentro é interessante, mas meio tedioso. Saí de lá e fui ver o Palatino, que é um sítio arqueológico no alto de uma colina, escolhido por alguns imperadores e poetas para viver modestamente, longe dos palácios extravagantes. Dá pra entender porque alguém gostaria de morar ali. Eu mesma, se não tivesse que pagar 12 euros pra entrar, acho que iria passar todos os dias naquele lugar.

Vigna Barberini - Palatino

Vigna Barberini - Palatino


É difícil explicar porque é tão bonito. É um lugar meio mágico, que transmite através de todos os sentidos uma sensação de calma e paz. Em uma área extensa, estão ruínas de templos, casas, fontes, do século I, todos de uma cor ocre, feitos de tijolos de barro, em meio ao verde de campos e árvores. As cores, a arquitetura em harmonia com a natureza, o silêncio profundo, só quebrado pelo canto de inúmeros pássaros, a luminosidade, o ar frio, mas ameno, do final do inverno, os campos já floridos e as árvores já com frutas, tudo isso compõe uma atmosfera meio etérea, como se o tempo tivesse sido suspenso. Caminhando por ali, em alamedas, escadas e túneis, a gente chega ao alto da colina, onde se vê de cima o Fórum Romano, o Coliseu e parte da cidade de Roma, com seus telhados, cúpulas e domos.

Fórum Romano

Coliseu e Fórum Romano

Fórum Romano

Descendo para o Fórum, vamos entrando na Roma Antiga que não é ocre de barro, mas branca de mármore. Aí sim, as grandes colunas de templos que são a marca estampada de Roma. São muito grandes e dão a idéia do que deveria ser essa cidade há 2 mil anos atrás. Lendo as informações do guia turístico, vamos entendendo um pouco da história, dos costumes antigos, e descobrindo até alguns rituais bizarros que eram feitos ali (procurem virgens vestais no google). Pra mim, ficou um contraste entre Palatino, Fórum e Coliseu. O Palatino com a beleza do cotidiano e da simplicidade, ilustrado pelos campos de margaridas e flores comuns. O Fórum, a magnitude, a grandeza do Império Romano, uma beleza clássica, copiada à exaustão pelos arquitetos que seguiram ao longo de milhares de anos (Roma é cheia de versões atualizadas dos clássicos, como o gigantesco monumento a Vittorio Emanuel, na piazza Venezzia, na minha opinião uma enorme cafonice). E o Coliseu, belo, mas um pouco incômodo quando pensamos no motivo de sua construção, alienar a “pão e circo”.

Templo de Antonina e Faustino - Fórum Romano

Templo de Saturno - Fórum Romano

Campidoglio
Saí do Fórum, meio perdida, e quando fui ver estava no Campidoglio, outra praça absurdamente bonita (depois vi outras várias). Queria entrar no Museu Palatino, mas deixei pra outro dia. Há um limite por dia para absorver tanta cultura, não dá pra transbordar.

Outros dias, outros passeios. Bem turista, com câmera(s) a tiracolo, fui ver o Pantheon, a Fontana di Trevi (fiz teu pedido, viu Julia?), a Piazza Spagna, a Villa Borghese, além de incontáveis ruas, avenidas e travessas do centro de Roma. Ainda falta tanta coisa pra ver que eu me impressiono. O bom é poder fazer tudo com calma, dormir até tarde de vez em quando, sem ter a sensação de que estou perdendo tempo.

Fontana di Trevi

Piazza del Poppolo

Museus: tem duas exposições imperdíveis que nos aguardam – Hopper e Caravaggio. As duas permanentemente lotadas, com longas filas. Esperamos pegar um dia de semana de manhã e enganar os turistas.

Ah, fomos no cinema, ver Alice no País das Maravilhas, do Tim Burton. O filme é muito bom e ir no cinema foi um alívio, porque estamos há quase uma semana sem assistir televisão.

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Roma, 04 de março de 2010

Ontem chegamos a Roma. A viagem até aqui foi menos dura do que eu tinha imaginado. As longas horas de vôo foram poucas para ver todos os filmes que eu queria ver no avião – nem sequer toquei nos livros de italiano que tinha na bagagem de mão para estudar na viagem. A alfândega me pegou desprevinida, para o bem e para o mal. Em Amsterdã, onde imaginava que passaria tranquilamente por uma mera conexão, encarei um jovem policial que me proporcionou um pequeno inquérito. O que vai fazer em Roma? Visitar, eu disse, conhecer a cidade. E o que quer visitar, quais os lugares que quer conhecer? Ahn... Boa pergunta, porque eu não havia planejado nada para visitar, pretendia fazer toda a programação quando chegasse.. Ele me encarava fixamente, e a partir daí fiquei vermelha, sentindo o calor que sentem os maus mentirosos. Ele me olhou com uma cara de reprovação, e fez muitas outras perguntas. No final, acabei sendo aprovada e recebendo um carimbo no passaporte.

A partir daí, fiquei triplamente ansiosa. Já achava que iriam me trucidar quando chegasse na Itália, com meu italiano risível e minha passagem pra dali a três meses. Qualquer proximidade com o Lucas já me deixava mais paranóica, com medo que nos vissem juntos e presumissem minha intenção de me estender no país. Combinamos que agiríamos como estranhos, até uns duzentos metros depois da alfândega. Foi engraçado e esquisito, mas fizemos isso. Eu fui no avião até Roma, fingindo que não conhecia o Lucas, sentado ao meu lado, e ensaiando o diálogo com o policial da alfândega.

Mas, chegando em Roma, outro cenário nos esperava. Primeiro, o cenário era outro. Nada de aeroporto moderno, eficiente, grande e bem sinalizado como em Amsterdã. O aeroporto é pior que o de Porto Alegre, e nossas malas demoraram uma meia hora para aparecer na esteira (as nossas e a de todos os passageiros do vôo). Na saída da sala de desembarque, não havia filas e guichês da alfândega. Só um policial, solitário, baixinho, de barba por fazer, parado em frente à porta, que me fez algumas perguntas. Estava espantado com o tamanho da minha bagagem e minha intenção de ficar 3 meses pra fazer turismo. Quando mostrei o e-mail da casa das irmãs me oferecendo estadia, ele falou “ah, le suore!” e por algum motivo me deixou passar sem perguntar mais nada. As irmãs devem ser uma boa referência.

Saí rápido dali para descobrir que não havia mais nenhuma etapa pela frente. Nem carimbo no meu passaporte não me deram. Comemos uma pizza (já novamente juntos, eu e o Lucas) e pegamos um táxi até o pensionato. O motorista, muito educado e gentil, fez um caminho diferente pra nos deixar dar uma primeira espiada em Roma.

Conhecemos nossa nova casa, o pensionato das irmãs, nosso quarto, bem bonito e agradável, comemos nossa primeira janta e demos a primeira volta pelo bairro. A sensação é de que recém começou a cair a ficha do que estamos fazendo. É uma sensação de imensidão de oportunidades e de perspectivas, o que dá também um pouco de medo. Sentimos saudades das pessoas antes de dormir, mas dormimos felizes por estarmos aqui, juntos.